terça-feira, 3 de outubro de 2017

PASSARINHA

Nunca foi muito feliz. Primeiro o pai, o tio, os irmãos, o marido, os filhos, os netos. Depois a servidão dos dias. Olhos de acolhimento, doçura extrema. Passa os dias a superar suas dores com um meio sorriso encabulado. Tem vergonha do carinho, nunca aprendeu. Nunca realizou, nunca soube. Escuta longe os desejos alheios, guardando os seus. Guardando tão secreto que nem lembra onde os perdeu. Nunca mais quis por si mesma, é sempre pelos outros. O fazedor dessa vida nunca olhou muito para si, apenas acumulou deveres para ela. Braços de moer, catar, esfregar, acolher. Mas nunca abraçar. Um cigarro acendido às escondidas, prazer secreto. Sufocado. Pernas de nadar rios e mares. Inchadas de estarem paradas. Raízes mortificadas. Nunca soube ser feliz. Não saberia nem soletrar. Mas vive e mastiga forças ancestrais. Transpira calmaria. Passa serena pela vida a olhar para dentro. Ah, passarinha, se soubesse que para além das Cajazeiras um mundo enorme se descortina. Mas dele só te sobraram os terrores desconhecidos que a TV mostra. Teus ídolos sangram dramas diariamente. Apega-se na fé. Reza. Ajoelha-se. Tece as dores da vida em orações aflitas. Guarda as chaves para saber dos horários. Vigia a felicidade alheia e tem medo. Medo de que se quebrem de tão felizes. Porque não lhe ensinaram a ser, apenas a obedecer. Tem muito amor para receber, mas pouco sabe. Nesta vida jamais lhe couberam a singeleza dos afetos espontâneos. Já calcularam teu destino no fel das desilusões. Das promessas de ferro. Tu sempre olhou na direção contrária do querer, era o certo. Dos teus pudores só tu sabes. Mas tem amor, passarinha, que te alcança e te cerca numa aura virginal. Tu és o centro de uma fortaleza estranha, rainha absoluta. Só tu sabes das dores dessa vida. Ninguém mais. Mas tu guardas, queima nas entranhas. Teu colo é gratidão. Tu és toda gentileza e afeto.  Passarinha que vive em gaiola aberta, mas jamais voaria

terça-feira, 18 de abril de 2017

CACHIMBETÉ



Eles eram o casal mais nonsense da cidade. Ela, vários rosários pendurados no pescoço, uma rosa nos cabelos curtíssimos que nunca cresciam, um sorrido desdentado e uma áurea de esquecimento. Ele, olhos azuis vivíssimos, rosto bravo a assustar crianças no caminho, cajado numa mão, caneca no outro e muitos sacos nas costas. Seguiam sempre juntos, seguidos de perto por muitos cachorros. A impressão é de que sua casa era a rua e que eram felizes assim, arrastando seus destinos entrelaçados nas ladeiras da cidade. Ela sempre rezando palavras inteligíveis, ele sempre reclamando da carestia, das ruas imundas e da avareza dos ricos. Iam tomar café toda tarde na casa de dona Fransquinha. Ela distribua a gentileza sempre na calçada e recebia em troca um dedo de prosa e um sorriso amarelo. Os cachorros eram seus maiores tesouros, protetores incansáveis e fiéis. Lá iam Tereza e Josias pelas ladeiras e lamentos da cidade, romaria de rezas e devaneios. Um dia, Josias dormiu e não mais acordou e Tereza nunca mais se achou neste mundo. Encontraram a saudosa mulher em sua casinha de barro batido num bairro distante, ainda conversando com seres imaginários e com o seu Josias. Ela ainda conversa com Josias. E faz planos. E sorri amarelo a quem a cumprimenta. Não sai de seu quartinho no asilo nem para ver as flores que enchem de graça o jardinzinho familiar. Silêncio absoluto para as suas rezas e sonhos. O seu amor ainda reluz no azul dos olhos zangados que nunca a abandonará.