segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012




FANTASMA

Eu tinha medo de fantasmas. Ficava horas acordada no escuro à espreita, imaginando monstros no armário, bichos embaixo da cama, meninas com a cabeça girando e a cama a tremer. Bastava um barulho lá fora, uma coruja branca voando baixo com seu pio rasgante para acionar o medo dentro da criança tímida que fui.
Os medos que me atacam hoje em dia são diferentes, mas não menos assustadores. Uma conta de luz, o chefe bipolar, o concurso perdido e jamais recuperado...
Os medos hoje em dia ainda me tiram o sono, mas não passam ao acender a luz. Eles continuam vivos dentro de mim, atemorizando os meus dias, meu cotidiano tedioso, minhas noites cansativas. Esses medos perseguem minha vontade de observar o mundo pelas lentes coloridas da despreocupação. Inibem meu apetite, minha alegria, minha vontade de comer serenata de amor.
Ah, esses medos cotidianos que me tiram a vontade de ouvir música e acreditar na canção de Chico Buarque que diz que Vai Passar.
Esses medos são tão meus que ninguém nem nada conseguem dissipar.
Esses medos são minha companhia em dias de chuva, noites de lua e domingos de sol.
Quanta saudade daqueles monstrinhos do armário que se esvaiam em sorrisos quando meu pai aparecia e me contava histórias engraçadas. Minha mãe cantava "Quando Jesus passar" e eu ficava sonhando com esse encontro.
Hoje Jesus se confunde com Mandela e Lula. Hoje a história mais engraçada que ouço vem da TV ou da Internet.
Vou desligar a luz e dormir mais um pouco. Os medos? Ficarão quietinhos e anestesiados durante o sonho. Volto amanhã. 

Alfabetização de Jovens e Adultos

Textinho feito por mim para um jornal do interior do Mato Grosso. Antiguinho, colocado aqui para efeito de experimentação e possível reflexão.



Um cidadão que não possui a capacidade de leitura e escrita numa sociedade grafocêntrica (que prioriza a escrita) como a nossa, está sujeito a ficar à margem, distante das decisões e do convívio natural e social. Alguns se consideram cegos, pois a tudo que fazemos necessitamos de leitura. Nos grandes centros, se não for capaz de identificar a numeração dos ônibus, o cidadão fica condenado a não conseguir sair do lugar; no supermercado, não poderia identificar os produtos só pela marca; no banco, seria impossível, sozinho, movimentar o seu cartão de crédito. Enfim, para tudo que se faz na cidade se impõe a capacidade de identificar as letras e os números.
Apesar dessa verdade incontestável, é fácil identificar em todo o país adultos que não tiveram acesso à educação no período escolar.
Somente a partir de 1934, o Estado assumiu como sendo de seu dever a educação de jovens e adultos, criando o Plano Nacional de Educação, onde incluía em suas normas a oferta do ensino primário integral, gratuito e de freqüência obrigatória, extensiva para adultos. A partir daí, outras medidas, tão significativas e insuficientes como essa, foram criadas, para citar como exemplos, tiveram: a instalação do Estado Nacional Desenvolvimentista, em 1946, que gerou a necessidade de mão-de-obra qualificada e alfabetizada; Em 1947, o MEC promoveu a Campanha de Educação de Adolescentes e Adultos (CEAA); Nos anos 50, foi realizada a Campanha Nacional de Erradicação do Analfabetismo (CNEA), que marcou uma nova etapa nas discussões sobre a educação de adultos; Na década de 60, com o Estado associado à Igreja Católica, novo impulso foi dado às campanhas de alfabetização de adultos, no entanto, em 1964, com o golpe militar, todos os movimentos de alfabetização que se vinculavam à idéia de fortalecimento de uma cultura popular foram reprimidos, o Movimento de Educação de Bases (MEB) sobreviveu por estar ligado ao MEC e à igreja Católica. Todavia, devido às pressões e à escassez de recursos financeiros, grande parte do sistema encerrou suas atividades em 1966. A década de 70, ainda sob a ditadura militar, marca o início das ações do Movimento Brasileiro de Alfabetização o MOBRAL, que era um projeto para se acabar com o analfabetismo em apenas dez anos. Após esse período, quando já deveria ter sido cumprida essa meta, o Censo divulgado pelo IBGE registrou 25,5% de pessoas analfabetas na população de 15 anos ou mais. Logo em seguida, surge o ensino supletivo, implantado em 1971, foi um marco importante na história da educação de jovens e adultos do Brasil, com a proposta de ser um modelo de educação do futuro, atendendo às necessidades de uma sociedade em processo de modernização. Em 1985, o MOBRAL foi extinto sendo substituído pela Fundação EDUCAR. A nova Constituição de 1988 determinava que o ensino fundamental, obrigatório e gratuito, passaria a ser garantia constitucional também para os que a ele não tiveram acesso na idade apropriada. Em março de 1990, com o início do governo Collor, a Fundação EDUCAR foi extinta. Em janeiro de 2003, o MEC anunciou que a alfabetização de jovens e adultos seria uma prioridade do novo governo federal. Para isso, foi criada a Secretaria Extraordinária de Erradicação do Analfabetismo, cuja meta é erradicar o analfabetismo durante o mandato de quatro anos do governo Lula.
Para cumprir essa meta foi lançado o Programa Brasil Alfabetizado, por meio do qual o MEC contribuirá com os órgãos públicos estaduais e municipais, instituições de ensino superior e organizações sem fins lucrativos que desenvolvam ações de alfabetização.
No Programa Brasil Alfabetizado, a assistência é direcionada ao desenvolvimento de projetos com as seguintes ações: Alfabetização de jovens e adultos e formação de alfabetizadores.
O Programa está em andamento, e ainda não é possível dizer se funciona ou não, mas, já é motivo suficiente para render graças à iniciativa, que finalmente dá ao problema a importância que ele exige, ou seja, não só os alunos recebem atenção, mas também os professores são preparados continuamente, recebendo capacitações e material suficientes para realizar o seu trabalho. Penso que o governo está trilhando o caminho certo, a nós, cabe torcer para que o Programa renda frutos positivos no futuro. Cruzemos os dedos!