FANTASMA
Eu tinha medo de fantasmas. Ficava horas acordada no escuro à espreita, imaginando monstros no armário, bichos embaixo da cama, meninas com a cabeça girando e a cama a tremer. Bastava um barulho lá fora, uma coruja branca voando baixo com seu pio rasgante para acionar o medo dentro da criança tímida que fui.
Os medos que me atacam hoje em dia são diferentes, mas não menos assustadores. Uma conta de luz, o chefe bipolar, o concurso perdido e jamais recuperado...
Os medos hoje em dia ainda me tiram o sono, mas não passam ao acender a luz. Eles continuam vivos dentro de mim, atemorizando os meus dias, meu cotidiano tedioso, minhas noites cansativas. Esses medos perseguem minha vontade de observar o mundo pelas lentes coloridas da despreocupação. Inibem meu apetite, minha alegria, minha vontade de comer serenata de amor.
Ah, esses medos cotidianos que me tiram a vontade de ouvir música e acreditar na canção de Chico Buarque que diz que Vai Passar.
Esses medos são tão meus que ninguém nem nada conseguem dissipar.
Esses medos são minha companhia em dias de chuva, noites de lua e domingos de sol.
Quanta saudade daqueles monstrinhos do armário que se esvaiam em sorrisos quando meu pai aparecia e me contava histórias engraçadas. Minha mãe cantava "Quando Jesus passar" e eu ficava sonhando com esse encontro.
Hoje Jesus se confunde com Mandela e Lula. Hoje a história mais engraçada que ouço vem da TV ou da Internet.
Vou desligar a luz e dormir mais um pouco. Os medos? Ficarão quietinhos e anestesiados durante o sonho. Volto amanhã.

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