quinta-feira, 19 de abril de 2012

INDIFERENÇA

No caminho para o trabalho percebi algo estranho: uma criança encoberta por papelão que dormia embaixo de um banco de praça. Ninguém parecia notar. O menino tinha por volta de sete anos de idade e estava totalmente exposto naquela rua, à mão de qualquer passante. Imediatamente recordei de quando eu mesma tinha essa idade e não podia andar de bicicleta fora do quadrado que era a minha rua, com suas dez casinhas de cada lado, uma ladeira delimitando até onde eu podia ir. O mais incrível de tudo é que eu obedecia cegamente a essa regra, a rua ainda se estendia além daquela ladeira, mas eu não tinha permissão para atravessar o encruzilhamento que ali se estabelecia e achava normal, nunca me rebelei. Continuei olhando para aquele menino ali tão desprotegido numa rua cheia de passantes, carros que circulavam entre pessoas indiferentes em meio ao turbilhão da manhã que já recebia um sol relativamente forte para o horário e que não incomodava o sono do menino que dormia profundamente perto de um cachorro de rua faminto e sujo que perambulava por perto. Como pode todo mundo passar por aquela cena e não ficar chocado? A criança que fui jamais entenderia por que um garoto tão novinho tinha permissão para dormir fora de casa, numa rua, aparentemente, estranha a ele. Como uma mãe ou um pai pode dormir sossegado em casa sabendo que seu amado filho não dormiu sob seus cuidados, depois de fazer a oração e pedir a bênção? A criança que eu fui jamais entenderia que essa cena é mais comum do que se imagina e não toca o coração de quase ninguém. Um comentário durante o jantar que o interlocutor escuta com a colher de sopa suspensa no ar e solta um “é triste!” e depois leva a colher a boca, toma a sua sopa quente e pergunta pelo resultado do futebol. Aquela criança que fui, apesar de sentir falta de muitas coisas hoje comuns, tipo bolacha recheada e boneca que abria e fechava os olhos, sentiu que teve uma infância maravilhosa, cercada de atenção e cuidados. Cuidados esses que à época pareciam exagerados, chateavam até não mais poder, hoje percebeu que significavam amor, segurança e sorte. Sorte de não precisar dormir numa praça, tendo um cachorro como única companhia e possível segurança (sabe-se lá o que acontece nas ruas!) e sem saber direito para onde ir quando acordasse e desse com a rua em movimento. A feira continuaria a se movimentar, os carros continuariam a passar, as pessoas andariam ocupadas com seus problemas cotidianos e a criança ficaria ali, tendo que tomar decisões importantes, providenciar um café e algo pra fazer para que o tempo passe e ele descubra o próximo passo de sua sobrevivência. Sua mãe diria que não consegue segurá-lo em casa, já não o pode controlar. Se ele não obedece e não vai à escola, já não se tem o que fazer, é a vida. O pai, ou não se pode contar com a sua autoridade ou não se sabe por onde anda.  E aquela criança cresce em meio à indiferença da rua, das pessoas que acostumadas ao esquecimento apenas protegem suas bolsas de um possível assalto. E o menino vigia mesmo aquela bolsa, afinal, acabou de acordar e precisa tomar seu café da manhã. 

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