terça-feira, 18 de abril de 2017

CACHIMBETÉ



Eles eram o casal mais nonsense da cidade. Ela, vários rosários pendurados no pescoço, uma rosa nos cabelos curtíssimos que nunca cresciam, um sorrido desdentado e uma áurea de esquecimento. Ele, olhos azuis vivíssimos, rosto bravo a assustar crianças no caminho, cajado numa mão, caneca no outro e muitos sacos nas costas. Seguiam sempre juntos, seguidos de perto por muitos cachorros. A impressão é de que sua casa era a rua e que eram felizes assim, arrastando seus destinos entrelaçados nas ladeiras da cidade. Ela sempre rezando palavras inteligíveis, ele sempre reclamando da carestia, das ruas imundas e da avareza dos ricos. Iam tomar café toda tarde na casa de dona Fransquinha. Ela distribua a gentileza sempre na calçada e recebia em troca um dedo de prosa e um sorriso amarelo. Os cachorros eram seus maiores tesouros, protetores incansáveis e fiéis. Lá iam Tereza e Josias pelas ladeiras e lamentos da cidade, romaria de rezas e devaneios. Um dia, Josias dormiu e não mais acordou e Tereza nunca mais se achou neste mundo. Encontraram a saudosa mulher em sua casinha de barro batido num bairro distante, ainda conversando com seres imaginários e com o seu Josias. Ela ainda conversa com Josias. E faz planos. E sorri amarelo a quem a cumprimenta. Não sai de seu quartinho no asilo nem para ver as flores que enchem de graça o jardinzinho familiar. Silêncio absoluto para as suas rezas e sonhos. O seu amor ainda reluz no azul dos olhos zangados que nunca a abandonará.

Nenhum comentário:

Postar um comentário