Eles eram o
casal mais nonsense da cidade. Ela, vários rosários pendurados no pescoço, uma
rosa nos cabelos curtíssimos que nunca cresciam, um sorrido desdentado e uma
áurea de esquecimento. Ele, olhos azuis vivíssimos, rosto bravo a assustar
crianças no caminho, cajado numa mão, caneca no outro e muitos sacos nas
costas. Seguiam sempre juntos, seguidos de perto por muitos cachorros. A impressão
é de que sua casa era a rua e que eram felizes assim, arrastando seus destinos
entrelaçados nas ladeiras da cidade. Ela sempre rezando palavras inteligíveis,
ele sempre reclamando da carestia, das ruas imundas e da avareza dos ricos. Iam
tomar café toda tarde na casa de dona Fransquinha. Ela distribua a gentileza
sempre na calçada e recebia em troca um dedo de prosa e um sorriso amarelo. Os
cachorros eram seus maiores tesouros, protetores incansáveis e fiéis. Lá iam
Tereza e Josias pelas ladeiras e lamentos da cidade, romaria de rezas e
devaneios. Um dia, Josias dormiu e não mais acordou e Tereza nunca mais se
achou neste mundo. Encontraram a saudosa mulher em sua casinha de barro batido
num bairro distante, ainda conversando com seres imaginários e com o seu
Josias. Ela ainda conversa com Josias. E faz planos. E sorri amarelo a quem a
cumprimenta. Não sai de seu quartinho no asilo nem para ver as flores que
enchem de graça o jardinzinho familiar. Silêncio absoluto para as suas rezas e sonhos.
O seu amor ainda reluz no azul dos olhos zangados que nunca a abandonará.
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